ARQUIVO CM - 787B, O SAMURAI VOADOR DA MAZDA


Hoje vamos falar deste que é um dos mais icônicos e emblemáticos carros de corridas de resistência da história. Mas engana-se você que vamos falar de um carro que tem um histórico carregado de vitórias. Muito pelo contrário, vamos falar de um carro que venceu somente uma corrida! Simplesmente a edição de 1991 das 24 Horas de Le-Mans. Com vocês o samurai voador da Mazdaspeed, o 787B.


O conceito Wankel

A Mazda vinha durante a década de 80 trabalhando em um conceito de motorização totalmente diferente das outras fábricas participantes do Campeonato Mundial de Resistência. O conceito do motor Wankel – desenvolvido por Felix Wankel é um tipo de motor que não utiliza pistões e bielas e sim um rotor de movimento ligado ao virabrequim do veículo – era único no automobilismo de ponta e com isso a visibilidade que a Mazda esperava que esta tecnologia alavancasse a venda principalmente do modelo RX-7 que utilizava o conceito Wankel em sua motorização.

Os precursores

O primeiro modelo que a marca desenvolveu em busca da tão sonhada vitória em Sarthe era o 767. Esse modelo já tinha em seu capô um motor Wankel modelo 13J. Entretanto iniciava-se ali uma saga digamos assim de afirmação. Durante o restante da década de 80 a Mazda ficou marcada muito mais pelos problemas e fiascos que passava por conta da sua teimosia em manter o desenvolvimento de um carro que tinha uma ideologia mas ninguém ousava em tentar. E mais, outros modelos como o 767B e 254i foram melhoras significativas de engenharia por parte da montadora, mas os resultados não apareciam e isso já estava irritando e muito à cúpula da Mazda.

Mas a história muitas vezes reserva um espaço especial para aqueles que ignoram todos os prognósticos negativos e lutam em busca da glória. E os responsáveis pela Mazdaspeed, o braço esportivo da montadora japonesa, estavam com esse conceito muito claro em suas mentes. Como verdadeiros samurais nunca desistiram de lutar. E a história tratou de colocá-los em seu devido lugar.

Nasce do 787

Para 1990 a Mazdaspeed com um projeto capitaneado por Nigel Stroud fez uma leitura do 767B e coletou dados de tudo aquilo que poderia ser aproveitado para um novo projeto. Depois de muitos estudos, o projeto enfim deixou a prancheta e ganhou vida: nascia o modelo 787, utilizado para a temporada de 1990 do Mundial de Endurance. Carroceria de fibra de carbono e kevlar com melhorias aerodinâmicas que davam mais estabilidade ao modelo, com itens como a asa-Gurney em pontos específicos que davam mais grip aerodinâmico ao modelo. Radiadores realocados a frente para melhorar a distribuição de peso, aumento da distância entre eixos em comparação com o 767B, um novo motor de três rotores apelidado de R26B de 2.6 l que entregava uma potencia total de 900cv que era ajustada para 700cv nas corridas para não sobrecarregar o sistema. A caixa de marchas de 5 velocidades era da Porsche, mas a Mazda a ajustava para suas necessidades. No final um carro com 830kg, muito rápido em curvas e com um motor não tão potente de velocidade final mas que era mais econômico que seus rivais.

Engana-se, porém, que o destino reservou vida fácil para o modelo no seu ano de estreia em Sarthe. Muito pelo contrário, foi um vexame! Todos os modelos abandonaram enquanto os 767B que ainda corriam chegaram pelo menos até o final da prova.

Vitória nipônica em terras francesas!

Para 1991, entretanto, o som típico dos Wankel foi a sinfonia que perfeita para uma vitória épica do modelo 787, agora em sua versão B. Enfrentando nada mais que os poderosos modelos XJR-12 e também os monstros C11 da Mercedes-Benz, a Mazda usou como trunfo um carro que era rápido o suficiente porém econômico com seus pneus e combustível. No final uma vitória com o carro 55, a única vitória do modelo justamente em Le-Mans com os pilotos Johnny Herbert, Bertrand Gachot e Volker Weidler. A tão sonhada vitória da Mazda veio depois de mais de uma década desenvolvendo um projeto que era único, mas que no final deu os frutos esperados para a montadora. Para se ter uma ideia, fora a única vitória de um motor de rotores e ainda, a última vitória de uma montadora japonesa até que em 2018 a Toyota venceu em Sarthe com seu TS-050. Os outros 2 Mazda 787B que estavam inscritos na prova terminaram na sexta e oitava posições garantindo o melhor resultado da história da Mazda em Sarthe. No final do ano, muito por conta da alta rotatividade de pilotos que passaram pelo modelo, a marca ficou com o quarto lugar do campeonato de construtores.

Para 1992 a FIA tratou de mexer no regulamento, tendo em vista que não gostaria de ter uma escalada de custos por conta de novos conceitos de motores dentro do campeonato. Então usou basicamente o regulamento de motores V10 de 3,5 l da Fórmula 1 o que possibilitou inclusive a entrada de montadoras como a Mercedes-Benz e a Peugeot na categoria por conta da necessidade de poucos ajustes que os motores teriam que sofrer. Dessa forma os motores Wankel não poderiam mais participar do Mundial de Endurance. 

A Mazda então que havia iniciado o desenvolvimento de um carro inteiramente novo, o modelo RX7-92P migrou para o IMSA que abriu as portas para o novo carro. Porém depois de um ano com resultados muito ruins, os projetos de alto desempenho da Mazdaspeed assim como o RX7 foram abandonados.

Idolatrado nos jogos eletrônicos!

Para os aficionados por jogos eletrônicos o carro estava muito bem representado! A Polyphony Digital tratou de dar um carinho muito especial para este grande modelo na série Gran Turismo onde ele é um dos melhores e mais cobiçados carros dos jogadores.

 

Renato Moraes

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Renato Moraes

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