ENDURANCE BRASIL: CRESCIMENTO COM SUSTENTAÇÃO


No último sábado tivemos o prazer de acompanhar a última etapa do Endurance Brasil, campeonato nacional de resistência que guardou para a derradeira corrida a definição dos títulos geral e de diversas classes.


Foi uma final emocionante, com as contas sendo feitas e refeitas a cada nova volta pelas equipes, que tiveram no elemento chuva e na secagem de certa forma inesperada da pista goiana na segunda metade da corrida, o tempero adicional que restava para rechear ainda mais esta grande final.

Na classe P1 o título já era quase certo para a equipe Motorcar, que pelas duplas Emilio Padron e Marcelo Vianna (AJR #11) e Vicente Orige e Gustavo Kiryla (AJR #444), tinham parte das mãos na taça, onde a situação era mais confortável para os pilotos do carro numeral 11, que não precisava vencer, podendo até encerrar a prova na sétima posição, caso a dupla companheira terminasse na ponta.

AJR a frente. Cena comum no campeonato. Foto (Imperio Endurance Brasil)

Os vencedores da classe P1 também foram campeões na classificação geral do campeonato, onde neste caso havia alguns francos atiradores se intrometendo neste plantel, que pela lógica, venceria um carro da classe mais rápida, neste caso a P1, já que o AJR não é apenas o carro mais rápido do Endurance Brasil, mas sim dentre todos os carros que competem em solo nacional.

Falo da dupla estreante no campeonato, Cacá Bueno e Ricardo Baptista, que a bordo de um Mercedes AMG GT3 da equipe Team RC (isso mesmo, do Rosinei Campos, o Meinha, decacampeão da Stock Car) vinha assombrando a concorrência com uma tocada muito constante, brigando não apenas pela vitória em sua classe, mas também pela ponta da geral. A vitória veio através do infortúnio do McLaren 720S da dupla Marcelo Hahn e Allan Khodair, que ainda na primeira metade da prova devido a uma falha hidráulica deitou por terra um título quase certo em sua classe.

Cacá Bueno e Ricardo Baptista. Reprodução (Imperio Endurance Brasil)

Claro que Bueno e Baptista tinham condições de vencer o campeonato se não fosse a falta de sorte da dupla da equipe Blau Motorsport, mas com a quebra dos concorrentes, como disse o próprio Cacá, a tarefa era só trazer o carro de volta pra casa.

“Muito feliz em conquistar o título do Endurance Brasil logo em meu primeiro ano. Foi uma temporada duríssima e que terminou em uma corrida em que o Ricardo e eu precisamos ser cautelosos. Depois do problema com nossos adversários, levamos o carro para casa para comemorar esse título”, disse o carioca do carro #27.

O MCR GranAM Ford V8. Tranquilidade na P2. Foto (Marcio de Luca)

Mas, para os desavisados que pensam que somente estes dois casos haviam de ser resolvidos na prova com quatro horas de duração de Goiânia, GO, engana-se, pois salvo a classe P2 que tinha o MCR GranAm Ford V8 com a situação muito bem definida e a GT4L que restava apenas saber qual piloto venceria (a disputa se dava entre companheiros do mesmo carro), todo o restante do campeonato estava aberto e sendo assim, estamos falando de cinco classes que buscavam definição, fora a geral.

NACIONAIS x IMPORTADOS

Apesar do altíssimo nível de disputas e pilotos que nosso campeonato tem apresentado ao longo dos cinco anos de vida que tem, estamos um pouco longe de atingir o patamar do ELMS, o campeonato europeu de resistência e do norte-americano IMSA, mas isto não nos coloca de verdade em um degrau abaixo, pois salvo o nível de alguns carros, estamos com um campeonato muito bem estruturado e gerido de forma competente.

Neste caso podemos até fazer um par de parênteses apenas referente aos protótipos, que salvo o único importado do grid, um Ginetta G57 (recalibrado para G58), que lá fora é homologado para correr na classe LMP3 dos dois campeonatos acima citados, todos os demais carros não atendem às rígidas normas da FIA para homologação nos campeonatos no exterior, já que suas construções não são dotadas de chassis do tipo monocoque fabricados em fibra de carbono.

Ginetta em ação. Foto (Imperio Endurance Brasil)

Isto não nos impede de ter um ótimo campeonato, pelo contrário, mas impede que nossos ótimos carros possam ser obtidos participar de campeonato fora do Brasil e isto pode ser um fator a ser considerado no longo prazo pelos fabricantes locais.

Além da fabricante britânica Ginetta que compete em campeonatos de resistência ao redor do mundo, há ainda as francesas Oreca, Ligier e Duqueine, que estão em patamares muito acima dos protótipos nacionais, porém efetivamente apenas no quesito segurança passiva dos carros, já que em termos de desempenho nosso AJR da gaúcha JLM Racing, só perde em desempenho para os carros Fórmula 1, tendo como critério de comparação o circuito de Interlagos - comparação realizada entre a melhor volta de Max Verstappen da Red Bull Racing no GP Brasil de 2019, cujo tempo foi de 1m07s503, contra 1m28s332 do protótipo nacional nas mãos do piloto José Ribeiro em prova do Endurance Brasil em setembro do mesmo ano na mesma pista.

Por outro lado temos que levar em consideração que não passamos pelo melhor momento econômico da nossa história e isto vem se arrastando já de algum tempo e sendo assim, o investimento que se faz em um protótipo destes (na casa dos 345 mil dólares sem impostos e custo de importação e frente), não compensa a aventura, especialmente porque pensando unicamente em nosso campeonato, não faz falta ter em nossas pistas um Oreca 07, ou Ligier JS P320 ou mesmo um Duqueine D-08 – seria um deslumbre para os olhos, mas pensando com os pés no chão, o campeonato vai bem da forma que está e se levarmos em consideração acidentes com nossos protótipos, não há registros de casos graves, o que nos mostra que mesmo não homologados pela FIA, atende as normas de segurança da CBA, que não tem o mesmo critério de rigidez, mas são feitas com muita responsabilidade e respeito à segurança.

Protótipo Sigma é de fabricação nacional. Reprodução (Imperio Endurance Brasil)

Efetivamente temos um campeonato seguro, onde o AJR, ou o Sigma, outro protótipo do tipo coberto da classe P1 e todos os demais protótipos abertos das classes P2 e P3 são mais do que suficientes para nossas pretensões, cujo nível de exigência e melhorias tem subido com o passar dos tempos – até pouco tempo corríamos com o MR-18 da Metalmoro, mas rapidamente evoluímos e chegamos no AJR e no Sigma, o que nos faz imaginar que em breve teremos uma nova evolução dos modelos que estão em pista, sempre pensando em nossa realidade, mas buscando uma alinhamento mais próximo com a realidade do exterior.

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Se por um lado ainda temos certa defasagem nos protótipos, não podemos dizer o mesmo nos GTs, que tem a classe GT3 como a vedete da categoria, com carros completamente alinhados com os campeonatos lá de fora, ainda que algumas marcas não estejam presentes por aqui.

Os belos Mercedes GT3 marcam forte presença no campeonato. Reprodução (Imperio Endurance Brasil)

Neste sentido a Mercedes domina nosso campeonato com quase dez carros em pista e ao que parece, o plantel da marca alemã de três pontas tende ainda a aumentar em 2022, algo que deverá ocorrer também com a Porsche, que hoje conta com apenas um modelo no campeonato, mas poderá ter a adição de um ou dois carros no ano que vem, onde provavelmente o destino das novas máquinas seja a classe GT4.

Temos ainda um McLaren 720S da Blau Motorsport que veio direto do GT Open para o nosso campeonato – seriam duas McLarens no grid, porém o modelo 570S GT4 da Autlog Racing se acidentou na etapa de Curitiba em junho deste ano e não retornou mais ao grid.

McLaren da Blau é uma das estrelas do campeonato. Foto (Marcio de Luca)

De forma interessante e inversa ao que acontece nos protótipos, onde salvo o Ginetta todos os demais são nacionais, nestas classes de GTs não temos nenhum carro nacional inscrito no campeonato, o que mostra que os times tem dado preferência a investimentos maiores, porém com mais possibilidades de retorno, que acontece através de vitórias e pela captação de bons patrocínios, dando um bom balanço de forças ao campeonato no que diz respeito a ir fora buscar um modelo, ou optar por correr em alto nível com um protótipo nacional.

Isto nos faz pensar que a sexta temporada do Endurance Brasil será ainda maior que as anteriores e a contar pelo volume de carros inscritos por etapa neste campeonato que se encerrou no último sábado, não será difícil chegarmos a provas com mais de 40 carros no grid.

Não custa sonhar, porém, quando se sonha com os pés no chão, a realização é questão de tempo, certo?

Que venha um Endurance Brasil ainda maior!


Márcio de Luca

Autor

Márcio de Luca

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